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sábado, 14 de agosto de 2010

Um operário lê a História

Bertold Brecht

Quem construiu as sete portas de Tebas?
Nos livros há muitos nomes de reis.
Mas foram os reis que arrastaram os pesados blocos de pedra?
E a Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem a reconstruiu a cada vez?
Em que casas de Lima, aquela brilhante cidade de ouro,
Moravam aqueles que a construíram?
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio,
Só tinha palácios para seus habitantes?
Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Os afogados gritavam por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Não havia sequer um cozinheiro em seu exército?
Filipe de Espanha chorou
Quando sua armada foi afundada e destruída.
E não havia lágrimas de outros?
Frederico II triunfou sobre a Guerra dos Sete Anos
Quem a venceu com ele?

Em cada página uma vitória.
Às custas de quem a vitória bailava?

Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantos detalhes.
Tantas perguntas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Canção do homem

Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que lhes surja a “canção da criança”.
Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam a sua canção.
Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe canta sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento do seu casamento, a pessoa escuta a sua canção.
Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, assim como em seu nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na "viagem".
Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, o levam até o centro do povoado, e então lhe cantam a sua canção.
A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.
Quando reconhecemos nossa própria canção, já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém.
Teus amigos conhecem a "tua canção", e a cantam quando a esqueces.
Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais.
Eles recordam tua beleza quando te sentes feio; tua totalidade quando estás quebrado; e teu propósito quando estás confuso.

Nota: parece haver alguma confusão sobre a autoria deste texto - tanto Alan Cohen (autor estadounidense de Chicken  Soup for the Soul) como a poetiza africana Tolba Phanem são apontados na Internet como seus autores - Alan tem o artigo indicado em seu site oficial, sob o título "They are singing your song", o que me leva a acreditar que seja ele o autor - por isso o mantive no blog em inglês como o sendo - caso saiba dessa informação com precisão, agradecerei que me avise.  

sábado, 7 de agosto de 2010

Percepção (by MLC)

Ah, maldita esta hora
em que quero cantar
minha dor, meu amor
e me faltam palavras

Como posso dizer que
são negros os meus dias
se negros queria que fossem?

Como denegrir minha honra
à semelhança de minha alma
sem fazer-vos pensar
que me desmereço?

Nas escuras noites
da escura África, caras alvas
nos trouxeram horror

Nas alvas canas,
alvos senhores
nos roubaram lembranças
de nossos negros sonhos

E, agora? Como posso dizer
que meu branco e sofrido passado
arancou de mim
minha negra e alegre expressão?

Quero cantar negras canções,
às noites negras
às caras negras -
mas me vejo frustrado

Como cantar o belo negro
que me ferve as entranhas
se tudo o que exalo
são falas do branco?

Me esqueci das palavras
que expressam meu ser...

Já não posso cantar.


Poesia vencedora da Menção Horosa no XII Concurso de Poesia da Uniso - 1995
Comissão julgadora: Profª Maria Flávia Steffen, Profª Ana Maria Gurgel e Prof. Renato Vanucci.
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